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A pandemia de Covid-19 vista pelo arquiteto Gonçalo Byrne

23 de Junho de 2020 às 11:35:49

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Notícias

Em vésperas do início do processo eleitoral que vai ditar quem serão os representantes da classe profissional dos Arquitetos durante os próximos três anos, Gonçalo Byrne, candidato à presidência do Conselho Diretivo Nacional da Ordem, falou ao “Jornal da Construção” sobre os impactos da pandemia de Covid-19 na atividade do setor e dos desafios que dela decorrem para o futuro.

Créditos: Inês d'Orey

”Jornal da Construção” - A situação que vivemos atualmente, provocada pela pandemia de Covid-19, chegou sem qualquer aviso e revirou por completo a economia mundial e o convívio social…
 
Gonçalo Byrne - Sem dúvida! Os efeitos da crise da Covid-19 são devastadores. Obrigam a um esforço gigante para atender às questões sanitárias e a paragem da produção tem um impacto económico imediato e gravíssimo, que tem que ser gerido globalmente.
 
J.C - Qual é o impacto que se pode retirar já dessa situação, na atividade dos ateliers de arquitetura?
 
Gonçalo Byrne - Os ateliers de arquitetura, como todas as outras atividades, tiveram que se adaptar ao confinamento. E grande parte tê-lo-á feito com relativo sucesso, com a adesão ao teletrabalho. Mas o mundo dos arquitetos é vasto e diversificado, com frentes de trabalho muito distintas, parte delas em obra, e os impactos terão sido também eles distintos. No entanto, ao contrário da crise financeira de 2008/2009, que se arrastou por dez anos, esta tem um desenlace previsível num horizonte de ano e meio a dois anos. Os efeitos da crise estão a testar os diferentes países e a sua resiliência, mas esperemos que o impacto possa ser mitigado e que a arquitetura saia melhor do que da crise 2008/9. A indústria da Construção é uma das poucas que não parou. Os promotores privados têm-se manifestado no sentido de manterem a atividade e de não pararem os projetos. O setor público promoveu uma série de medidas para minorar os efeitos da paragem do trabalho e vários pacotes de investimento público no mundo da construção e dos projetos, em áreas como a habitação, espaço público, infraestruturas, etc. Mas os arquitetos devem estar atentos, e a Ordem deve acompanhar estas medidas, garantindo que o interesse público, mas também as condições para o exercício da profissão e para uma arquitetura de qualidade estão salvaguardadas. Acredito, apesar das incertezas da crise desta pandemia, que os indicadores são positivos para a atividade dos ateliers de arquitetura.
 
J.C.- A ideia de que nada será como dantes, ou de que teremos que estar preparados para futuras e novas epidemias, apresenta desafios particulares para a profissão? Quais?
 
Gonçalo Byrne - Muitas das questões que a crise da Covid-19 vem agora colocar à arquitetura já estavam presentes. Perante uma pandemia, o que está em causa é uma enorme vulnerabilidade do mundo construído, das cidades e da paisagem. Mas este mundo construído está em constante transformação e adaptação às condições e aos desafios que nos são colocados. As transformações na cidade e na arquitetura são lentas e são o resultado da convergência de muitos decisores. As pessoas têm a ideia de que a arquitetura e o mundo construído são algo que se faz para a vida. Mas isso nunca foi assim na história. Do ponto de vista da higiene sanitária e das próprias pandemias, a história das cidades e da arquitetura tem tido sempre uma evolução de resposta. O plano Pombalino de Lisboa, por exemplo, é uma resposta altamente higienista aos grandes problemas de insalubridade da cidade medieval. Em resposta, nasce uma nova cidade, de ruas em quadrícula, de espaços abertos, do saneamento. A inter-relação entre a arquitetura, a forma da cidade e a chamada medicina pública, é forte. Esta pandemia foi planetária. A da Gripe Espanhola, por exemplo, afetou outros continentes, mas esta foi verdadeiramente planetária. Normalmente, os efeitos destas epidemias, e foi assim no caso da Gripe Espanhola, têm uma forte tendência para cair no esquecimento uma vez passada a crise. Estes acontecimentos vêm expor as vulnerabilidades. Por exemplo, em Portugal, nós não só não temos uma cultura de manutenção dos edifícios, como muito menos temos uma cultura de reabilitação e de adaptação. Portugal, que aderiu ao Tratado de Paris, ainda não se consciencializou do que isto quer dizer em termos das transformações e de adaptações de modelos de vida, sobretudo em relações que se prendem com a construção, quer dos edifícios, quer do próprio espaço público. Mas a Covid-19 veio revelar essa urgência. A paragem da produção e da indústria e o confinamento vieram “limpar a poluição”. A descarbonização, as economias circulares, repensar a construção e o espaço público de forma abrangente, estudar novas formas de reabilitar e construir eram medidas que estavam já em curso, mas ainda com resistência, e que agora, desejavelmente, encontram outra abertura, nas quais os arquitetos têm um papel central a desempenhar. Provavelmente não existirá uma arquitetura pós Covid-19, mas haverá certamente uma arquitetura que tem de se transformar e reagir. É preciso reabilitar, reciclar, repensar os modelos de vida com consequências diretas na forma de habitar, de construir, de utilizar os espaços públicos. Esta crise é um processo ainda em desenvolvimento. Tal como nós, arquitetos, fazemos num projeto, é preciso estabelecer objetivos, desenvolver estratégias, e apresentar soluções, escolhendo à medida que vamos avançando. E os arquitetos devem estar presentes na definição das estratégias e no desenho das soluções, reclamando essa função e atuando, desde logo, junto do poder político. Uma das virtudes do exercício do arquiteto, quando está a trabalhar no projeto, é a de transformar dificuldades em oportunidades. Num momento como este, o grande desafio é transformar a crise em oportunidade.
 
J.C- Como é que esta situação poderá influenciar a criatividade dos profissionais da classe, nomeadamente na conceção de espaços de convívio social, de lazer, de trabalho ou, até mesmo, das nossas habitações? Ou isso será um problema que dependerá sempre e unicamente da adoção de comportamentos individuais e coletivos?
 
Gonçalo Byrne - A experiência do confinamento, a obrigação de ficar fechado em casa durante meses, dramatiza a perceção que temos dos espaços que habitamos - a casa, os escritórios, a cidade, etc. E é muito curioso, porque isso desperta na cidadania essa sensibilidade que eu espero que seja também traduzida numa reivindicação, da sua parte, para que a resolução dos problemas seja acelerada, e onde a arquitetura e os arquitetos têm um papel incontornável. Os profissionais estão preparados e disponíveis para responder, mas, sobretudo, a sociedade, por força deste confinamento forçado, procura esse tipo de resposta. As pessoas ficaram despertas para algumas necessidades na casa e no espaço público. No espaço da casa, tornou-se evidente que é preciso valorizar a exposição solar, a luz natural, o arejamento. Acolhemos favoravelmente a ideia de existir um maior número de possibilidades na apropriação dos espaços da casa e uma maior liberdade nos usos que dela fazemos. Valorizou-se a existência de espaços de transição na casa, entre o público e o privado, que nos permitem partilhar, mas ao mesmo tempo proteger. Esta limitação ao espaço da casa veio mostrar a necessidade desses espaços intermédios, terraços, varandas generosas, nos espaços que habitamos. E depois, no espaço público, exige-se desde logo uma transformação, ou a continuação de uma transformação que estava já em curso, com uma política e gestão ao nível das mobilidades, apostando nas mobilidades suaves, no pedonal, na bicicleta, etc., e a natural aposta na componente verde dos nossos espaços públicos. Esta crise evidenciou algumas das limitações que as cidades nos têm vindo a impor, mas trouxe-nos também uma visão sobre um outro mundo possível. Se conseguirmos contribuir, enquanto arquitetos e enquanto cidadãos, para um mundo mais solidário, mais social e mais ecológico já é muito positivo. Mas isto só lá vai com todos!

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