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O barco da Construção já bateu no fundo?

02 de Dezembro de 2011 por José Tomaz Gomes* às 09:06:56

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Opinião

A década de 80 ficou registada na história do sector da Construção como o período em que se viveu a crise que mais gravemente afectou as empresas de construção. Herdeira dos problemas criados após 1974, das desorientações políticas vividas a partir dessa data, das actuações incoerentes dos governos que então se sucediam no poder, foi a década de 80, mais concretamente o ano de 1985, que assistiu ao que na altura se chamou “o bater no fundo do barco da construção”.

A manutenção de uma conjuntura económica recessiva, a tardia decisão em relação a aspectos importantes afectando directamente o Sector e a instabilidade política vivida durante o ano de 1985 vieram a repercutir-se numa quebra de actividade da Construção a que nunca se havia assistido, arrastando as empresas para uma situação extremamente grave traduzida na subutilização da respectiva capacidade produtiva e originando o maior ritmo de quebra do emprego.
Como saímos na altura dessa difícil situação? Basicamente, com o início das ajudas de pré-adesão à Comunidade Económica Europeia e graças aos fundos estruturais comunitários de que beneficiámos, nos anos que se seguiram, a não ser num curto período da década de 90, as empresas de Construção viveram um dos períodos de maior prosperidade.

Até 2001.

Desde 2002, a produção do Sector tem conhecido quebras sucessivas, estimando-se uma quebra acumulada de cerca de 41% até ao final de 2011.
A produção do sector da Construção deverá ter caído 6,5% em 2010, com o segmento residencial a registar o pior resultado. A produção deste segmento deverá ter recuado cerca de 15% em 2010, o segundo pior desempenho desde que o actual ciclo de contracção se iniciou, em 2002, prevendo-se que a quebra acumulada da produção de habitação será já próxima dos 65%, no final de 2011. No que diz respeito ao segmento não residencial, a superfície de pavimentos licenciada em 2010 registou uma evolução negativa (-12,4%), a qual foi precedida por uma redução bem mais significativa verificada durante o ano de 2009 (-24,3%, em termos médios anuais). No que diz respeito ao mercado de obras públicas, observa-se uma redução homóloga no valor dos concursos adjudicados até Outubro (-1%), factor verdadeiramente determinante para a evolução futura da produção do segmento da engenharia civil.
O mercado de trabalho traduz bem a redução da actividade no Sector: durante os primeiros nove meses de 2011, o emprego do sector da Construção situou-se nos 447,8 mil trabalhadores, quando, em 2002, a média anual do número de trabalhadores do Sector ultrapassou os 622 mil.
O número de insolvências de empresas de Construção tem vindo a evoluir a um ritmo preocupante (+36,8% em termos homólogos, até Setembro de 2011), representando, nesse período, 18,4% do total de insolvências registadas para a totalidade dos sectores de actividade.

O que é que se tem de fazer e urgentemente para sair desta situação?

Pagar as dívidas acumuladas às empresas de Construção pela Administração Pública Central, Regional e Local, rever a lei do arrendamento e as regras que regem o despejo, voltar a assegurar o financiamento e redinamizar a procura no mercado da habitação (desenvolvendo o mercado de capitais e o recurso a novas soluções, produtos e instrumentos e atraindo capital de novos investidores para o mercado imobiliário, designadamente, investidores internacionais e institucionais - fundos de pensões, companhias de seguros, etc.), promover a manutenção e reabilitação dos imóveis por parte dos seus proprietários e valorizar as cidades por parte das administrações públicas (criando fundos imobiliários de arrendamento e fundos para a promoção da reabilitação e da valorização das cidades), concentrar as opções de investimento público nas infra-estruturas de interconexão internacional e nos espaços urbanos e na dinamização dos instrumentos que possibilitem a reabilitação urbana e a competitividade das cidades (reprogramação do QREN 2011 – 2013 adaptada ao novo contexto institucional, financeiro e político) e apoiar a internacionalização da empresas de Construção.
Se nada disto for feito, então as nossas previsões não poderão deixar de apontar para uma ainda maior quebra da produção do sector da Construção em 2012, na ordem dos 11% (mais de 50% relativamente a 2002).
E isto quererá dizer, infelizmente e apesar das dificuldades que já se atravessam, que, mais desorientado do que em 1985, o “barco da Construção” ainda não bateu no fundo…

 

*Vice Presidente Executivo da AECOPS

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