18 / Novembro / 2017

Sábado

Diretor: José Tomaz Gomes | Editor: AECOPS

Artigos de Opinião ver todas os artigos desta secção

A Construção na proposta de Orçamento do Estado para 2012

03 de Novembro de 2011 por * José Tomaz Gomes às 09:09:52

tamanho da letra:

Opinião

Como resultado da crise do sistema financeiro verificou-se uma redução drástica do crédito à economia que se traduziu num aumento generalizado dos prazos de pagamento e num aumento da dívida acumulada às empresas de Construção. O aumento das dívidas ao Sector, tanto da parte do Estado, como dos privados, significa que as empresas de construção estão a ser pressionadas para financiar as tesourarias dos seus clientes e, nesse sentido, a suprir a falta de liquidez da banca.

Naturalmente, a Construção, que vive uma crise sistémica profunda e prolongada, não tem condições para suportar o mau funcionamento da economia e a falta de liquidez do sistema financeiro e ameaça entrar em colapso.
Por outro lado, a crise das vendas no sector residencial e não residencial conduziu a um aumento dos stocks e a uma redução acentuada da liquidez das empresas do Sector, confrontadas com elevados níveis estruturais de endividamento.
Acresce que a crise financeira e a crise profunda e prolongada da actividade da Construção ocorrem num sector com problemas estruturais:
- o sector da Construção apresenta o maior rácio de endividamento (0.80), denotando um elevado recurso a capitais alheios para o financiamento das actividades e, por conseguinte, uma fraca solvabilidade e autonomia financeira (0.25 e 0.20, respectivamente).
- o prazo médio de recebimentos no Sector atinge os 4,45 meses contra 2,75 meses na generalidade das empresas em Portugal e a duração média do stock de produtos (9,15 meses) e de matérias-primas (8,5 meses), como resultado da duração do ciclo produtivo na Construção, está muito acima da média nacional.
Estes dois elementos constituem factores de tensão acrescidos sobre a liquidez das empresas.
O estrangulamento da tesouraria das empresas de construção decorre, pois, da crise financeira e da redução do crédito à economia pela banca, com o acréscimo das dívidas e o aumento dos prazos de pagamentos, da crise que se vive no próprio Sector que se traduz numa redução da facturação, das vendas e dos proveitos e da liquidez e da redução do crédito da banca às empresas de Construção.
Será que o Orçamento do Estado para 2012 vem resolver esta grave situação?
Pela proposta de Orçamento apresentada pelo Governo e que já se conhece, muitas são as dúvidas de que a venha a resolver de imediato.
Não obstante o facto de a proposta de Orçamento reconhecer que é crucial promover a liquidez e a solvabilidade do tecido empresarial, de modo a reforçar as condições financeiras de empresas com viabilidade económica, o Governo não se compromete com nenhum objectivo concreto para regularizar as actuais dívidas aos fornecedores e fica-se por uma vaga declaração de intenções, nos termos da qual pretende melhorar as condições de financiamento das empresas através da redução dos atrasos de pagamento aos seus fornecedores.
Não obstante o facto de a proposta de Orçamento considerar estratégica a melhor acessibilidade aos instrumentos de financiamento existentes, não são adiantadas políticas que permitam alcançar tal objectivo.
Não obstante o facto de a proposta de Orçamento explicitar que a Reabilitação Urbana vai ser assumida como área de acção estratégica, a sua concretização prática fica limitada a alterações legislativas relevantes, o que por si só é insuficiente para dinamizar o processo de reabilitação.
Não obstante o facto de a proposta de Orçamento se referir à necessidade de dinamizar o mercado de arrendamento, apenas é transmitida a intenção de promover alterações legislativas no sentido dessa dinamização, sem ser feita referência a qualquer ideia que o Executivo possa ter nesse campo.
Não obstante o facto de a proposta de Orçamento se preocupar com o investimento público, o certo é que propõe uma redução brutal de 900 milhões de euros nas despesas de investimento em relação a 2011, comprometendo-se, no entanto, a atenuar o seu impacto na economia real através de uma aceleração na absorção de financiamento comunitário face a 2011.
A verdade é que os números demonstram que o agravamento da crise de liquidez no sector da Construção tem múltiplos impactos na sociedade portuguesa, que podem ser perspectivados nas dimensões económica e social (emprego), mas também ao nível das competências (tecnologia), tendo em conta que as empresas de Construção concentram o essencial dos quadros, do saber e da tradição da engenharia civil portuguesa, um património acumulado ao longo de gerações e que não pode ser desbaratado.
Assim o entenda, esperamos, quem vai apreciar e aprovar a proposta de Orçamento do Estado para 2012.

* Vice Presidente Executivo da AECOPS

Comentar

Iniciar Sessão

Nome de Utilizador

Palavra-chave

Se não tem conta,

Registe-se aquiEsqueceu-se da palavra-chave?

Comentar este artigo

Título

Texto

Os comentários deste site são publicados após aprovação, pelo pedimos que respeitem os nossos Termos de Utilização.
O seu IP não será divulgado, mas ficará registado na nossa base de dados.
Por favor, não submeta o seu comentário mais de uma vez.